O County General, mais conhecido agora como Drinque de Xixi, quebrou a internet essa semana com uma tema polêmico.

É lá de Porto Alegre, capital gaúcha,  que o ainda recém-inaugurado bar Spoiler lançou o tal “Drinque de Xixi”, a mais nova polêmica das redes sociais brasileiras desta última semana.

O drinque, que deveria ser chamado mesmo de County General, é inspirado em uma série americana dos anos 90 e é coerente com a proposta do bar, que conta com referências de diversas séries.O termo em inglês que dá nome ao bar vem do verbo spoil e significa algo como “estraga-prazeres” ou “quem revela uma informação antes da outra pessoa ter visto”.

No bar, a temática foi muito bem trabalhada e está presente em diversos espaços da casa, desde o banheiro, a entrada com post-its de spoilers deixados por clientes, entre eles alguns mentirosos e vários Fora Temer, totalmente espontâneos, até a senha do wi-fi do bar que é “pablomorre”.

É interessante como a temática não se restringe apenas à decoração, mas está subentendida em diversas camadas da experiência que a casa proporciona.

A carta autoral do bar, assinada pelo jovem bartender Drew Roza, ex-Kamao, é toda trabalhada em cima de clichês memoráveis das telinhas norte-americanas.

Quem lembra do Super Mario Bar, aberto meses atrás nos EUA.

Um dos hits da casa é o Morgan, inspirado na série do psicopata Dexter. Vermelho, como o sangue de todos os assassinados pelo analista forense de Miami e embalado em papel filme, assim como as cenas de crime que faziam o personagem principal se safar.
A receita é fácil e leva rum branco, frutas vermelhas, limão siciliano e espuma cítrica. Gunther, drinque sem álcool inspirado na série Friends, combina café, suco de laranja e água tônica e é servido em uma xícara com o logotipo do Central Perk, nome do café que o garçom da série trabalha.

Acapulco, drinque que relembra a praia mais famosa do México e seu maior embaixador, Chaves, mistura tequila, tamarindo, groselha e suco de limão e vem servido em um pequeno barril de madeira, local onde o personagem principal se escondia.

Outros drinques em homenagem à séries como Game of Thrones, Mad Men, How I Met Your Mother, Star Wars entre outros são encontrados no cardápio.

Já o Heisenberg ao lado, é um clássico recente da casa.
Em referência à série Breaking Bad, parece uma das poções ilícitas do professor Walter White, mas é apenas um spritz com um toque de curaçau blue.

E não é só no bar que a pesquisa foi feita, na cozinha estão pratos em homenagem à séries como Os Simpsons (Donut’s), How I Met Your Mother (Marshall’s Burger),  The Big Band Theory (Pizza) entre outros.

Uma das críticas que aqui se faz, é a americanização da coisa toda. Não há, ainda, referência à nenhuma série nacional ou que não seja produzida nos EUA.

!!! SPOILER !!!
Mês que vem, o Tia Nenê está no cardápio, em homenagem à Grande Família.

 

E assim chegamos ao tão falado County General, uma referência à aclamada série E.R. (Plantão Médico).

Com certeza já é um grande spoiler para esse inverno, já que ele é servido quente, na temperatura digamos, corporal.

O drinque nada mais é do que um Quentão.
160 ml à base de cachaça branca, cravo, canela, cardamomo, laranja, limão tahiti e baunilha.

Servido em uma caneca do estilo comadre (aqueles recipientes para colher urina) e com um pote coletor ao lado para o cliente usar se quiser, causou espanto nas redes sociais por conta da associação com um possível xixi.

Alguns, mais apaixonados, se revoltaram publicamente contra essa afronta, outros, mais comedidos, criaram teorias para justificar uma má associação do bar com algo escatológico.

Aqui, gostaria de levantar alguns questionamentos que me fazem acreditar que, até para não nos tornarmos bebedores xiitas, precisamos de mais “Drinques de Xixi” no Brasil e no mundo.
Espero sua opinião sobre o tema nos comentários.

– Quem aqui já provou o drinque para julgá-lo?

A primeira pergunta é prática e direta. Quem aqui, dos que criticam a proposta, já experimentou no balcão, a receita do County General? Resposta é fácil. Poucos. Pouquíssimos.

Tive a oportunidade de julgar mais de 200 bartenders nesse país através de campeonatos de coquetelaria e de barista e sou prova viva de que uma foto não faz jus ao todo. Só provando o sabor para se ter noção da conjunto da obra. Para o bem e para o mal.

Ou seja, a grande maioria que critica o drinque, sequer tomou algum dia um coquetel do bar, sequer conhecia o bar e seu conceito meticulosamente desenhado para atender uma proposta pop à preços acessíveis. A verdade é, a grande maioria que critica sem embasamento algum, faz julgamentos precipitados, tanto para criticar, quanto para aplaudir sem conhecimento.

– Porque o drinque é bom. Ele não pode ser ruim. Ponto.

Não gostar da apresentação, ok. Gosto não se discute. Agora, o drinque não pode, em hipótese algum, ser uma aberração da coquetelaria. Só diz isso quem é preguiçoso ou intelectualmente desonesto.

A receita leva como destilado único uma das melhores cachaças desse país, Weber Haus Amburana. É complementada com canela, cravo da índia, limão tahiti, laranja bahia, baunilha e cortada com água. Ora, é um Quentão.

E um quentão de qualidade indiscutível. Eu conheço a receita. Fiz questão de perguntar a receita de cabo a rabo ao criador, e garanto, ela não pode ser ruim, ainda que para alguns servidas em recipiente sensorialmente inadequado.

– Coerência, acima de tudo. Independente dos padrões atuais

Imagine se o badalado chef Alex Atala colocasse a sua famosa formiga cítrica em um prato de um restaurante como o Outback, sem que o cliente soubesse do conceito envolvido.
Gritos de socorro seriam ouvidos por todo o salão. Porém, quando o inusitado vem aliado à conhecimento e técnica, no local adequado, ele se torna um agregador ao conceito geral da proposta oferecida.

O bar acertou em cheio em quebrar com a normalidade oferecida pelos bares que coerentemente são normais, e inovou com um elemento que remete à série E.R.

O inusitado é bem vindo, quando apoiado em tradição, técnica e alta qualidade.
Muito acertada a pesquisa e a escolha de colocar um quentão num pote de coleta.

– Despadronização das modas – O “Siga o Mestre” já deu!

É chegada a hora de entendermos de uma vez por todas que não se faz uma geração de bares com uma tendência só.
A onda dos speakeasies já passou? Sim, já. Com o tempo sobrarão apenas os melhores. A onda dos coquetéis moleculares também. A era dos Tiki está chegando talvez no seu auge. Durará muito mais que isso? A história diz que não. Os ciclos mudam, assim que é.

Porém, assim como a gastronomia precisamos saber coexistir. Restaurantes franceses junto com peruanos, japoneses com italianos, poloneses com tailandeses. Não se pode esperar que todo santo bar que se abre tenha o gelo translúcido, o Hanky Panky amargo de sempre ou o flair que todos conhecemos. Cada macaco no seu galho, pelo bem do crescimento do segmento.

Viva a despadronização, viva a liberdade criativa e a diversificação das oportunidades.

– A arte revolucionária, se verdadeira, será contestada pela crítica conservadora

Quando o público conservador critica a novidade, eu me alegro.
Quando há inovação suficiente para criticar os padrões estabelecidos, a ponto de gerar raivosas contestações de especialistas do mercado, com seus dedos em riste apontando para todos os lados, eu sento e observo. É de lá que sairá o novo,  enquanto o velho dá seus últimos suspiros.

Não que o drinque ou o bar tenham essa missão, talvez sejam só parte do processo, mas coisa em sí acontece a todo momento.

Também é verdade que a grande maioria dos comentários observados na internet foram favoráveis e positivos ao drinque. Provavelmente, foram os guardiões da ordem que mais se espantaram.

Dissemos aqui, em janeiro, que uma das tendências para 2017 nos bares é a construção de storytelling para apresentação da carta de bar. Ponto para o Spoiler.

– Não se aplaude a arte apenas pelo gosto pessoal. 

Saudosistas, românticos da Proibição Americana, tenham calma.
Se pouco lhes importa que a lenda Jerry Thomas, usasse gins e vodkas piores que os nossos piores nacionais durante a sua carreira, porque se  importar tanto com um drinque que serve uma das melhores cachaças de alambique do nosso país, um dos melhores destilados do mundo.

A proposta do Spoiler de trazer coquetelaria autoral a um público jovem e pop é coerente com o que servem. Ponto para eles. Se não agrada parte da população etílica conservadora, ótimo, os bares clássicos com suas receitas centenárias estarão lá sempre.Tem espaço para todos.

– Mil vezes Spoiler do que só mais um copiador de instagram

Nesses tempos sombrios em que as redes sociais tornou uma geração promissora em uma grande legião de ctrl c + ctrl v, é prazeroso ver, fora do eixo RJ/SP, surgir uma casa que arrisca ser original.

Mil vezes a honestidade de criação da casa, mil vezes a tentativa de fazer algo novo para um público, numa proposta jamais vista em todo esse planeta, do que mais um, apenas mais um copiador de instagram.

Então, vai fundo, equipe Spoiler, é nos erros e nos acertos, que não foi nesse caso,  que se constrói uma história verdadeira. E é de pessoas, bares verdadeiros, autorais de fato que precisamos para evoluir. A gente aqui aplaude.